Boa Vista, 21 de março de 2020.
Governador Antônio Denarium,
Roraima precisa ser fechada. Quando falo isso, estou falando em fechar 100% as repartições públicas, com exceção dos serviços essenciais de saúde e segurança! Falo de determinar o fechamento de todos os bares e locais onde se aglomerem pessoas, pois nos últimos cinco dias, conforme aponta todo e qualquer registro, a coisa piorou muito em relação ao COVID-19.
Mais do que eu, o senhor por sua competência, é conhecedor das dificuldades inerentes a nossa já complicada situação como estado. Enfrentamos árduas imposições Federais sem que nos sejam dadas em contrapartida, as mais básicas ferramentas para tratá-las. Os imigrantes que há poucos dias fugiam de um problema grave, encontram na ausência de estrutura hoje, a condição ideal pra que o vírus os faça de vetores enfreáveis pela própria caoticidade da situação. Todos juntos sofreremos as consequências disso.
Brasília também não nos dará a devida atenção na prática institucional. Roraima sobreviverá do que por direito obrigatório possuir, ou do que sobrar por lá. Essa nossa pequena relevância numérica/populacional misturada com a falta de alcance político, se multiplicará exponencialmente, moldada pela crise que o restante do país já enfrenta: Como olhar pra nós quando Rio de Janeiro e São Paulo sucumbem perante a pandemia nesse momento?
Cada estado está lutando por sua gente. Cada território brasileiro que apresente suas vantagens e desvantagens frente a proliferação da pandemia, nós não temos que ser diferentes.
Fomos abençoados pelo tardar no agravamento da crise. Hoje não temos caso nenhum confirmado. Evidente que tanto eu quanto o senhor e quem mais possuir discernimento, pode deduzir que isso em absolutamente nada representa a realidade.
Se assumirmos que temos “apenas” uma pessoa em Roraima portando o Coronavírus – a qual não sabemos quem é ou onde está – e aplicarmos as taxas de crescimento de infectados nos outros cantos do país nesses últimos dias, provavelmente terminaremos os próximos quatorze dias com o registro de quase quarenta casos. Isso pouco representará a realidade dos casos não identificados: Dada nossa baixa capacidade em realizar testes, ela será muito maior que os que poderemos confirmar.
Apresento deduções baseadas em cenários do país, porque nosso erro está sendo justamente o de repeti-los, aos moldes do que nossos grandes centros também fizeram em relação a China, Itália (Europa no geral) e EUA: Absolutamente todos tiveram que ver colapsar sua capacidade de atendimento na saúde, antes de reagir de forma absolutamente inflexível.
Deus abençoou o povo de Roraima com o tempo, pra que pudéssemos compreender a ineficácia de todas as estratégias que menosprezaram as consequências da força de propagação inicial dessa doença. Analisando todo esse contexto, por que as repetirmos?
Precisamos proteger nosso povo. Não é razoável nessa hora o receio em exagerar. Precisamos mostrar coragem ao determinar o isolamento social: só ele esclarecerá às pessoas que ainda não perceberam, a verdadeira gravidade da questão. Precisamos deter os efeitos da propagação inicial porque sabemos através das mais variadas evidências que se o resto do mundo não conseguiu contê-la, nós – usando as mesmas fórmulas – também não conseguiremos.
Por todo o globo terrestre, morrem números cada dia maiores. Por aqui serão amigos e familiares. Não espere os primeiros sinais desesperadores dessa doença, pois ao exemplo do que deveríamos aprender com o resto do mundo, quem reage de forma tardia, testemunha seu povo morrer.
Governador, faça hoje. Amanhã poderá ser tarde.
Renato Queiroz